Meu pai era um homem estranho. Ele dizia que, desde cedo, tinha uma espécie de dom mediúnico e que via coisas que outras pessoas não conseguiam enxergar, tanto coisas boas como ruins. Contava, ainda, que conversava todas as noites com meu avô, já falecido há muito tempo. Era o tipo de assunto que fazia um garoto perder noites de sono. Como eu tremia de medo quando ele falava que via gente estranha andando pela nossa casa!
Por outro lado, ele nunca procurou aperfeiçoar esse dom, além do fato de que ele era escravo de um vício, uma fraqueza que, pessoalmente, sempre julguei muito mal: o alcoolismo. E quando se entregava a isso é que ele se transformava num verdadeiro monstro, outro fato que aterrorizou minha infância. Passado o terrível efeito, muito envergonhado, ele admitia que nunca conseguiria largar de tal vício e que, quando ele se encontrava nesse estado, uma coisa ruim, um encosto, sussurrava algo em seus ouvidos que o levava a cometer atos irracionais e cruéis.
Além disso tudo, ele parecia adquirir uma força sobre-humana, e ele já era um homem forte por natureza.
Nisso, momentos tenebrosos continuavam a atormentar nossa paz e posso dizer até mesmo que quase cheguei a morrer em consequência disso. Eu passei boa parte da minha vida o temendo, até que chegada certa idade, extremamente saturado, eu o enfrentei. Eu nunca deixei de amá-lo, mas eu também o odiava. Era um anjo e um demônio ao mesmo tempo. Depois que o enfrentei, ele parou com os ataques, mas nunca largou o vício e não preciso dizer que isso o levou a morte. Fico envergonhado de admitir que, ao mesmo tempo que senti muita tristeza, também senti um certo alívio.
Após sua morte, comecei a ter estranhas sensações noturnas e meus pesadelos se tornaram, inexplicavelmente, cada vez mais grotescos. O episódio mais insólito deu-se numa madrugada em que acordei gritando a plenos pulmões no quarto da minha mãe. Desde já, afirmo que nunca sofri de sonambulismo e não tiro a razão dela em ter ficado apavorada ao acordar na escuridão, com seu filho, ali em pé, berrando como se estivesse possuído. Do pesadelo em si, pouco me lembro...
Apenas que, sob uma atmosfera cadavérica, eu estava em um labirinto repleto de figuras semi-humanas e encontrava uma ex-namorada, que quase destruiu minha vida. Só que ali, naquele momento, só o rosto era reconhecível: seu corpo era repleto de grossas escamas, tinha patas de bode e grandes asas negras como as de um morcego. Era como se, naquele terreno onírico, ela fosse um monstruoso súcubo. E então, ela me abraçou e sorriu, porém seu sorriso não expressava qualquer tipo de alegria, e sim, a mais pura malevolência.
Escancarou sua boca como um crocodilo e sua língua, na verdade, era um disforme tentáculo que penetrou pelo meu esôfago e pareceu ter sugado minha alma. E totalmente dominado por ela, como um zumbi, fui levado a cometer um ato horrivelmente indescritível.
Aí, como eu já relatei, acordei sem saber onde estava e gritando como um louco. Nem com o maior dos esforços, consegui me lembrar do abominável ato e do resto do pesadelo. Só de imaginar o que seja, ainda tremo de medo, mas não ouso confessar nem a mim mesmo e até agradeço por ter sido agraciado com tal esquecimento. Apesar de não saber o que se passou, tenho certeza de que esse foi o pior pesadelo que já tive na minha vida.
Certa madrugada, levantei-me da cama e para meu espanto, eu me vi deitado da mesma forma em que fui dormir. O quarto estava mergulhado num nevoeiro espesso e cinzento e o meu gato de estimação, ainda deitado aos pés do meu corpo, olhou para mim, todo arrepiado. Eram dois de mim distintos: o corpo material ali deitado, observado por mim mesmo, numa forma etérea.
Não consegui acreditar naquela situação bizarra e a todo momento, eu tentava tocar em meus próprios braços. E horrorizado, vi uma massa incorpórea e gelatinosa flutuando sobre meu corpo ali deitado, e eu estava totalmente impotente diante daquela visão. Lenta e subitamente, uma espécie de portal em forma de losango foi se abrindo à minha frente e atravessei-o, como se puxado por uma irresistível atração magnética. Por um tempo incalculável, andei por um estreito, escuro e sufocante corredor, sentindo meus pés já em carne viva.
Ao fim do corredor, eu estava em meu próprio quarto, com ângulos e dimensões ligeiramente distorcidos. Olhei para minha cama e quase chorei de pavor: meu corpo ainda estava deitado, mas agora parecia estar do avesso, com meus órgãos internos à mostra e colados à pele virada. E ainda estava cercado de ratazanas monstruosas, bestas que fazem parte de uma de minhas piores fobias e que naquele momento, deliciavam-se num banquete obsceno. Fechei meus olhos para poupar-me de ver aquela depravação de minha carne. Sem nada que eu pudesse fazer, continuei andando sem saber exatamente o que procurar.
Talvez uma mensagem, revelação ou sinal, não sei definir. Apesar de modificada e com todas as paredes pintadas de vermelho, aquela era minha casa, eu sabia disso.
Só que agora, era um local sinistro e hostil, e eu via seres sem forma natural se locomovendo pelas sombras. Eram vultos totalmente negros e sem rosto, e eu podia sentir sua essência maligna. Além disso, eu via híbridos de répteis e humanos, espíritos pútridos e figuras que eu reconhecera dos meus próprios pesadelos esbarrando-se cegamente. Algumas nem sequer eram descritíveis.
Entre os que mais me atormentavam, estavam um demoníaco velho barbado, de uma magreza repugnante, olhos esbugalhados e que usava um chicote para açoitar outras almas perdidas; e minha própria tia, que foi assassinada por um namorado supostamente possuído por um Exu. Eu sempre achei que ela não tinha encontrado paz após a violenta morte, e ali era uma visão assustadora: pele doentiamente pálida, usando uma camisola branca ensanguentada, e seus olhos, narinas e boca expeliam um ectoplasma intenso e brilhante. Aquilo era uma verdadeira Babilônia infernal!
Olhei para baixo e não existia mais chão. Todo o piso se tornara um pântano de nauseabundo lodo negro e transparente, e sob sua superfície, via-se espíritos esfarrapados se afogando e sendo arrastados para profundezas infindáveis. Não resisti e comecei a chorar, sentindo uma angústia cósmica pesando em mim. Eu não conseguia parar de andar e na sala, então, avistei uma figura curvada para frente, sentada no sofá. À medida em que ia me aproximando dele, sua cabeça ia também se levantando em minha direção.
Aterrorizado, logo vi que era meu pai, apesar de que estava mumificado. Ele não tinha mais olhos e agora, mais próximo dele, percebi um demônio sussurrando em seu ouvido enquanto olhava para mim com ódio e sarcasmo. De repente, aquilo que era meu pai se levantou e correu em minha direção. Eu sabia que sua intenção não era nada boa e tentei correr, mas minhas pernas não me obedeciam. Ele, então, agarrou meu braço, e seu toque era frio, bruto e viscoso. A partir daí, lutei para acordar e fui tomado por um medo insano.
Sabe aquela sensação de se perceber que vai acordar de um sonho maravilhoso e tentar carregar aquela energia junto com você? É justamente o contrário: é aquele medo de se acordar trazendo consigo o resquício morto de um pesadelo atroz. Acordar com uma gargalhada diabólica ainda ecoando no fundo dos seus ouvidos.
Acordei com o miado desesperado do meu gato. Levantei minha cabeça, numa mescla de alívio e pavor, e chamei por ele. O miado, agora, foi substituído por um ruído como se algo estivesse mastigando. Ainda entorpecido e suado, esfreguei meus olhos e mirei para o canto do quarto de onde vinha aquele barulho estranho, e imaginei que o bichano estivesse comendo alguma porcaria que havia encontrado.
Espantei-me ao ver um vulto agachado ali e depressa, acendi a luz. Congelei diante daquela visão hedionda, e já não sabia se estava mesmo acordado ou se ainda era prisioneiro do pesadelo. Era meu pai, sorrindo para mim com a boca putrefata e devorando o corpo destroçado do gato. “Sentiu saudade de mim, meu filho?”, perguntou com uma voz inumana enquanto se aproximava de mim. E eu gritei até perder totalmente a razão.
Fonte: Leitura Creepy (http://leituracreepy.blogspot.com.br/2012/11/sensacoes-noturnas.html)
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