quinta-feira, 2 de maio de 2013

Doença

Queria saber por onde começar, mas eu não sei quando foi que tudo isso começou, mas eu tenho que começar a contar de alguma forma.

Eu já fui uma criança obesa, minha mãe ameaçava me matar se eu continuasse engordando, mas eu era criança e achava que não tinha nenhum problema. Eu gostava de ler, mas nem tanto, eu sofro de TDAH e nunca consegui ler textos longos sem ficar com os neurônios exaustos. E quando eu tinha uns 5 ou 6 anos ganhei um livro com as páginas quase todas ilustradas, com textos pequenos. Perfeito pra mim.

O nome do livro era Jujubalândia, admito que nunca gostei muito daquele livro, a capa era cheia de jujubas coloridas, e a história era sobre um lugar que era basicamente feito por doces, aquele tipo de lugar que toda criança sonha ir, mas diferente da Fantástica Fábrica de Chocolate, por exemplo, aqueles doces eram tão exagerados, e eram tantos, que era enjoativo de olhar, até mesmo para uma criança. Isso porque crianças são muito mais tolerantes ao sabor doce, crianças comem balas atrás de balas e pirulitos e algodão doce e açúcar atrás de açúcar.

Mas aqueles doces conseguiam deixar eu, uma criança fanática por açúcar na época, com muito enjoo. Recapitulando, o lugar era puro açúcar, as crianças pareciam estar um pouco acima do peso, e tinham expressões alegres forçadas.

Mas aquele lugar (Jujubalândia, no caso) tinha uma bruxa. Típico de histórias infantis não? Era uma bruxa feia, nojenta e extremamente magra. Seu nome era Anoréxica. Eu lembro do primeiro dia que eu pronunciei esse nome, óbvio que uma criança de 6 anos não teria entendido, e eu perguntei para o meu pai:

- Pai, o que é uma anoréxica?

A grosso modo, ele respondeu:

- É uma pessoa que não come, tem nojo de comida, não gosta de comer.

Eu fiquei me perguntando “Como assim uma pessoa não gosta de comer? Por que não come? Como é possível?”. Eu engoli a resposta e olhei de novo para a página da bruxa, olhei com repugnância, senti que aquela tal de Anoréxica era um ser desprezível. As crianças jogavam doces na bruxa e ela morria, algo assim, não me lembro. Um final que não fazia sentido nenhum.

10 anos se passaram, estou com 16 anos.

Não sou mais obesa, nem mesmo estou acima do peso. Aliás, quase não estou mais no meu peso normal. Faz um pouco mais de um ano que estou sofrendo de Anorexia nervosa com lapsos de bulimia. Talvez eu tenha entendido o que o livro quis dizer, as crianças se entupiam de doces e eram exageradamente felizes e gordas, assim como eu era quando criança.

A anoréxica, para as crianças, era vista como um ser desprezível, uma bruxa, e precisava ser entupida de doces para ser exterminada. Hoje eu sei o que é viver com esse olhar de nojo vindo de todos os lados, doces enjoativos que todos tentam enfiar pela minha garganta.

Não é nenhum estilo de vida. Meu pai apenas estava certo apenas em partes quando disse que anoréxicas não comem.

Eu amo comer! Amo comida!

Mas a anorexia pode surgir por infinitas razões, eu imagino que o jeito que minha mãe me tratava quando eu era obesa, influenciou bastante. Mas aquele livro parece passar outro tipo de mensagem, como se estar gordo te faria exageradamente feliz. Não sei, tantas coisas me vem à cabeça.

A anorexia não foi o único transtorno mental e alimentar que eu desenvolvi, eu tenho ataques de fúria e de euforia constantes, eu às vezes vejo coisas que não estão lá, assim como a automutilação, depressão e algumas tentativas de suicídio, enfim. Esses dias eu estava no meu blog, e lembrei do Jujubalândia, meu cérebro explodiu quando vieram tantas coisas à minha cabeça sobre o livro, resolvi ir falar com amigas anoréxicas do meu blog, perguntei se elas conheciam aquele livro e, por assustador que fosse, quase todas conheciam.

Muitas anoréxicas já tinham lido aquele livro, e debatemos sobre o assunto desde então, tentando entender. Não acho que o livro tenha estimulado no desenvolvimento da anorexia, não acredito nessas coisas. Mas acredito que crianças obesas engolidoras de açúcar se sentiram atraídas por aquele livro, e quando cresceram, precisaram emagrecer, e isso levou-as à loucura.

Hoje eu vejo gente que não entende da anorexia e a vê como algo estúpido. “Ah aquelas caveiras esqueléticas que acham que estão gordas”. Maldita sociedade.

As opiniões ao redor da anorexia são, na maioria, absolutamente erradas.

Não é uma escolha, não é um estilo de vida, é uma doença.

Antes de julgar o comportamento de um(a) anoréxico(a), procure entender, não deixe sua criança virar uma gorducha açucarada, não deixe ela se atrair até por uma capa cheia de jujubas.

Não deixe sua criança saudável se tornar uma bruxa.

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